Alcance o Alvo — Vivendo a Fé

Mais resultados

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Os Livros Apócrifos: Quais são? Por que ficaram fora de algumas Bíblias?

Livros apócrifos e manuscritos antigos ao redor de uma Bíblia aberta

 📖 Versículos base: Judas 1:14–15, Josué 10:13, Números 21:14

Você pega duas Bíblias lado a lado. Uma tem 66 livros. A outra, 73. Em algumas igrejas ortodoxas o número sobe. Na tradição etíope, fala-se tradicionalmente em 81. Se a Bíblia é a Palavra de Deus, por que essa diferença? Alguém retirou livros? Alguém acrescentou? A resposta curta é que a história é bem mais complexa — e bem mais fascinante — do que essas acusações simples.

Os livros da Bíblia não surgiram todos juntos dentro de um único volume. Eles foram escritos ao longo de muitos séculos, copiados separadamente, traduzidos, lidos nas comunidades judaicas e cristãs e, gradualmente, reconhecidos como Escritura por diferentes tradições.

Por isso, quando falamos em livros apócrifos, precisamos primeiro entender uma coisa importante: um livro considerado apócrifo por uma tradição cristã pode fazer parte da Bíblia de outra.

Eu diria: 66, 73 e 81 livros, Escrituras e livros apócrifos.

 

É justamente aí que começa uma das histórias mais fascinantes da formação da Bíblia.

O que são livros apócrifos?

A palavra “apócrifo” acabou sendo usada para designar escritos religiosos antigos que não fazem parte do cânon considerado inspirado por determinada comunidade.

Mas o termo pode causar confusão.

Para os protestantes, livros como Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e 1 e 2 Macabeus normalmente são classificados entre os apócrifos.

Para os católicos, entretanto, esses livros não são apócrifos. São chamados de deuterocanônicos e fazem parte oficialmente do Antigo Testamento. Uma Bíblia católica possui 46 livros no Antigo Testamento e 27 no Novo, totalizando 73.

Já as tradições ortodoxas utilizam um Antigo Testamento mais amplo, relacionado à tradição da Septuaginta, incluindo outros escritos que não aparecem nas Bíblias protestantes.

E ainda existem obras antigas como 1 Enoque e Jubileus, que não fazem parte das Bíblias católica e protestante, mas receberam um lugar especial na tradição cristã etíope.

Em resumo: dizer simplesmente que existem “sete livros apócrifos” não conta toda a história. A lista depende da tradição cristã e também do significado que estamos dando à palavra “apócrifo”.

Apócrifos, deuterocanônicos e pseudepígrafos são a mesma coisa?

Não exatamente.

Deuterocanônicos é o nome usado especialmente pela Igreja Católica para livros cujo status foi discutido ao longo da história, mas que são reconhecidos como Escritura dentro do cânon católico.

Apócrifos, no uso protestante comum, costuma incluir esses mesmos escritos quando são considerados literatura religiosa útil, porém não inspirada.

pseudepígrafos é uma categoria usada pelos estudiosos para obras antigas atribuídas a personagens famosos do passado, embora provavelmente tenham sido compostas posteriormente por outros autores ou grupos.

O Livro de Enoque é um ótimo exemplo. O texto apresenta revelações atribuídas a Enoque, personagem de Gênesis, mas a obra que chegou até nós provavelmente foi formada por diferentes seções compostas ao longo de um período considerável.

Por que existem Bíblias com diferentes quantidades de livros?

À primeira vista parece estranho. Mas a comparação ajuda a entender:

TradiçãoQuantidade normalmente apresentadaCaracterística
Protestante6639 livros no AT e 27 no NT
Católica7346 livros no AT e 27 no NT
OrtodoxaVaria conforme a tradiçãoAntigo Testamento geralmente mais amplo
Etíope OrtodoxaTradicionalmente 81Inclui obras como Enoque e Jubileus

Bíblia Protestante, Bíblia Etíope e Bíblia Católica representadas lado a lado

A diferença se concentra principalmente no Antigo Testamento. Católicos e protestantes possuem os mesmos 27 livros do Novo Testamento.

A diferença aparece porque diferentes comunidades cristãs herdaram e reconheceram coleções diferentes de textos.

E para entender como isso aconteceu, precisamos voltar a uma época em que ainda não existia um livro encadernado chamado simplesmente “Bíblia”.

Antes de existir uma Bíblia, existiam muitos escritos

Imagine uma comunidade judaica séculos antes de Cristo.

Não havia uma Bíblia impressa sobre uma mesa. Os textos eram copiados à mão em rolos e circulavam separadamente. A Torá, os Profetas, os Salmos e outros escritos eram preservados e transmitidos ao longo das gerações.

Ao mesmo tempo, também circulavam obras religiosas, históricas e de sabedoria produzidas no ambiente judaico.

Com a expansão da cultura grega pelo Mediterrâneo oriental, muitos judeus passaram a viver em regiões onde o grego era a língua comum. Foi nesse contexto que surgiu a tradição de tradução grega das Escrituras judaicas conhecida como Septuaginta.

A Septuaginta e os primeiros cristãos

A Septuaginta tornou-se muito importante no mundo de língua grega, e os primeiros cristãos também conheceram e utilizaram amplamente as Escrituras em grego.

Nesse ambiente de transmissão grega circulavam obras como Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e Macabeus.

Esses textos acabariam ocupando posições diferentes nas tradições cristãs posteriores.

Uma linha do tempo ajuda a visualizar:

1. Antes de Cristo — escritos judaicos circulam em hebraico, aramaico e, posteriormente, também em grego.

2. Período da Septuaginta — as Escrituras judaicas são transmitidas em grego, enquanto outros escritos religiosos também circulam nesse ambiente.

3. Primeiros séculos cristãos — igrejas utilizam livros do Antigo Testamento, escritos apostólicos e conhecem outros textos cristãos.

4. Ao longo dos séculos — diferentes tradições cristãs consolidam suas coleções de livros bíblicos.

5. Século XVI — a Reforma reacende e intensifica a discussão sobre quais livros deveriam integrar o Antigo Testamento.

Essa sequência é importante porque evita uma ideia muito comum: a de que existia desde o começo uma Bíblia encadernada com uma lista universalmente definida e, muitos séculos depois, alguém simplesmente decidiu retirar alguns livros.

A história foi bem mais gradual.

Os primeiros cristãos não receberam uma Bíblia pronta

Nos primeiros séculos do cristianismo, as igrejas possuíam e compartilhavam coleções de textos.

Circulavam os Evangelhos, cartas apostólicas, livros do Antigo Testamento e outros escritos cristãos.

Alguns textos foram amplamente reconhecidos. Outros tiveram sua autoridade discutida em determinadas regiões. E havia ainda obras muito respeitadas pelos cristãos que, no fim, não entraram no Novo Testamento.

Entre elas estavam:

  • Pastor de Hermas;
  • Didaquê;
  • Epístola de Barnabé;
  • Apocalipse de Pedro.

📜 Você sabia? Alguns manuscritos cristãos antigos preservaram junto aos livros bíblicos textos que hoje não fazem parte do Novo Testamento. Isso ajuda a perceber como a circulação e o reconhecimento dos escritos cristãos foram processos históricos.

Isso não significa que esses livros tenham sido secretamente escondidos ou proibidos.

Significa que as comunidades cristãs precisaram distinguir entre textos valorizados para leitura e aqueles reconhecidos como Escritura com autoridade apostólica.

O processo levou tempo.

E essa discussão não terminou completamente na Antiguidade. Séculos depois, ela voltaria ao centro de uma das maiores transformações da história do cristianismo.

A Reforma Protestante retirou livros da Bíblia?

Essa provavelmente é a pergunta mais conhecida quando o assunto são os livros apócrifos.

Na internet, normalmente aparecem duas explicações completamente opostas:

“Os católicos acrescentaram livros à Bíblia.”

×

“Martinho Lutero retirou sete livros da Bíblia.”

Nenhuma dessas frases, sozinha, explica adequadamente o que aconteceu.

A discussão também não começou com Lutero. Séculos antes, Jerônimo já distinguia os livros correspondentes ao cânon hebraico de outros textos lidos nas igrejas, demonstrando que o debate sobre sua autoridade era muito anterior à Reforma.

Quando os reformadores discutiram o Antigo Testamento, deram preferência aos livros correspondentes ao cânon hebraico judaico.

Por isso, a Bíblia protestante passou a apresentar esse conteúdo dividido em 39 livros no Antigo Testamento.

Um detalhe importante: a Bíblia Hebraica tradicionalmente conta esses escritos como 24 livros, enquanto o Antigo Testamento protestante os organiza em 39. A diferença ocorre principalmente porque alguns livros que os protestantes separam são contados juntos na tradição judaica.

Mas aqui aparece um detalhe histórico que muda bastante aquela imagem de que, durante a Reforma, sete livros simplesmente desapareceram das Bíblias.

 

Bíblia gotica alemã tradução por martinho lutero com os livros apócrifos também traduzidos

As primeiras Bíblias protestantes ainda traziam os apócrifos

Os apócrifos não desapareceram imediatamente.

Muitas Bíblias protestantes antigas continuaram imprimindo esses livros em uma seção separada, normalmente colocada entre o Antigo e o Novo Testamento.

Na prática, isso expressava uma distinção: os livros podiam ser lidos e considerados úteis, mas não recebiam a mesma autoridade dos textos reconhecidos como canônicos.

A tradição anglicana oferece um exemplo interessante. Seu Artigo VI afirma que determinados livros poderiam ser lidos como exemplo de vida e instrução, mas não deveriam ser utilizados para estabelecer doutrina.

📅 1826: um marco importante ocorreu quando a British and Foreign Bible Society adotou a política de não financiar edições bíblicas que incluíssem os Apócrifos. A ausência desses livros nas Bíblias protestantes modernas, portanto, não aconteceu de uma única vez no século XVI.

Isso muda bastante a resposta para a pergunta “Lutero retirou sete livros da Bíblia?”.

É mais preciso dizer que a Reforma consolidou no protestantismo um cânon menor para o Antigo Testamento, enquanto diversos livros continuaram sendo impressos separadamente em Bíblias protestantes durante muito tempo.

Mas se os reformadores conheciam esses livros e até permitiam sua leitura, surge outra pergunta:

por que eles não os consideravam Escritura inspirada?

Por que os protestantes não consideram esses livros inspirados?

A posição protestante não surgiu simplesmente porque os reformadores não gostavam de determinados livros.

Um dos principais critérios adotados durante a Reforma foi dar preferência, no Antigo Testamento, aos livros correspondentes ao cânon hebraico judaico.

Além disso, a autoridade de alguns desses escritos já havia sido discutida entre cristãos muito antes do século XVI, como vimos no caso de Jerônimo.

Dentro da tradição protestante, consolidou-se então uma distinção importante:

1. Livro canônico — reconhecido como Escritura inspirada e utilizado como autoridade para a fé e a doutrina.

2. Livro não canônico — pode possuir valor histórico, religioso ou moral, mas não recebe a mesma autoridade das Escrituras.

Essa diferença é importante porque “não inspirado” não significa automaticamente “falso” ou “sem valor”.

Um livro antigo pode preservar informações importantes sobre a história judaica, costumes, conflitos políticos e crenças religiosas sem que uma determinada tradição cristã o considere parte da Bíblia.

É exatamente assim que muitos protestantes enxergam livros como 1 Macabeus: não como Escritura, mas como uma fonte histórica importante para compreender o período anterior ao Novo Testamento.

Mais tarde, documentos confessionais protestantes formalizaram essa posição. A Confissão de Westminster, por exemplo, declarou explicitamente que os livros chamados Apócrifos não pertenciam ao cânon das Escrituras.

O catolicismo, porém, seguiu outro entendimento.

Por que a Bíblia Católica possui sete livros a mais?

A Bíblia Católica possui 46 livros no Antigo Testamento, enquanto a protestante possui 39.

Os sete livros completos presentes no cânon católico e ausentes do cânon protestante são:

1. Tobias

2. Judite

3. Sabedoria

4. Eclesiástico ou Sirácida

5. Baruc

6. 1 Macabeus

7. 2 Macabeus

Além desses sete livros, a Bíblia Católica contém passagens adicionais em Ester e Daniel que não aparecem no Antigo Testamento protestante.

Na tradição católica, esses escritos são chamados de deuterocanônicos.

Foi o Concílio de Trento que colocou esses livros na Bíblia?

O Concílio de Trento, realizado no século XVI, é frequentemente citado nessa discussão porque, em 1546, reafirmou formalmente o cânon católico no contexto das controvérsias provocadas pela Reforma.

Pintura representando o Concílio de trento

Mas dizer que a Igreja Católica simplesmente “adicionou sete livros à Bíblia em 1546” também seria historicamente impreciso.

Esses textos já eram conhecidos, copiados, lidos e recebidos como Escritura em grande parte da tradição cristã muito antes de Trento.

📜 Você sabia? A discussão sobre esses livros é mais antiga tanto que a Reforma Protestante quanto que o Concílio de Trento. Por isso, reduzir toda a história a “católicos adicionaram” ou “protestantes retiraram” livros acaba escondendo séculos de debates sobre o cânon.

Trento, portanto, não descobriu sete livros desconhecidos e decidiu colocá-los na Bíblia. O concílio formalizou a posição católica em um momento no qual a questão havia se tornado central na divisão entre católicos e protestantes.

E essas duas tradições ainda não esgotam o assunto.

Quando olhamos para o cristianismo oriental, encontramos Bíblias com coleções ainda maiores.

E a Bíblia Ortodoxa?

Aqui precisamos tomar cuidado com os números.

Não existe uma única lista que possa ser aplicada de maneira simples a todas as tradições ortodoxas. Existem diferenças entre igrejas e tradições locais.

De modo geral, porém, as tradições ortodoxas preservaram um Antigo Testamento mais amplo e fortemente relacionado à transmissão grega da Septuaginta.

Além de livros também encontrados na Bíblia Católica, dependendo da tradição podem aparecer textos como:

  • 1 Esdras;
  • 3 Macabeus;
  • Salmo 151;
  • Oração de Manassés;
  • outros escritos preservados em determinadas tradições ortodoxas.

Protestantes, católicos e ortodoxos: a principal diferença não está no Novo Testamento — as três grandes tradições compartilham os mesmos 27 livros —, mas na extensão do Antigo Testamento.

Figura de Cristo segundo Ortodoxos

Por isso, quando alguém pergunta “quantos livros tem a Bíblia Ortodoxa?”, uma resposta única pode ser enganosa. Primeiro é preciso saber qual tradição ortodoxa está sendo considerada.

E então chegamos a um dos casos mais curiosos de toda a história do cânon.

A Bíblia Etíope e seus 81 livros

A Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo preservou uma tradição bíblica própria e muito antiga.

A própria tradição etíope apresenta seu cânon como contendo 81 livros, incluindo obras que não fazem parte das Bíblias protestante e católica.

Duas delas chamam especialmente a atenção:

01. Livro de Enoque
Uma antiga coleção de tradições sobre Enoque, anjos, Vigilantes, juízo e acontecimentos relacionados ao mundo anterior ao Dilúvio.

02. Livro dos Jubileus
Uma releitura de acontecimentos de Gênesis e Êxodo organizada em períodos de jubileus.

Essa tradição textual seguiu um caminho diferente daquele predominante no cristianismo ocidental, o que contribuiu para a preservação de obras antigas que desapareceram ou perderam status canônico em outras comunidades cristãs.

📜 Os livros chamados Meqabyan na tradição etíope não devem ser confundidos simplesmente com 1 e 2 Macabeus da Bíblia Católica. Apesar da semelhança dos nomes, pertencem a uma tradição textual diferente.

Mas entre todos esses escritos, nenhum desperta tanta curiosidade quanto Enoque.

Ele aparece brevemente em Gênesis, era pai de Matusalém e desaparece da narrativa com uma das frases mais misteriosas do Antigo Testamento.

E séculos depois, um texto atribuído a ele seria conhecido pelos primeiros cristãos, mencionado de forma muito próxima no Novo Testamento e encontrado entre os Manuscritos do Mar Morto.

É aí que a história dos livros apócrifos fica ainda mais interessante.

O Misterioso Livro de Enoque

Enoque aparece poucas vezes na Bíblia, mas sua história deixou uma das frases mais intrigantes de Gênesis.

Ele pertence à genealogia anterior ao Dilúvio, era filho de Jarede, pai de Matusalém e, diferentemente dos outros patriarcas de Gênesis 5, sua história não termina simplesmente com a declaração de sua morte.

“E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou.”

Gênesis 5:24

Uma passagem tão curta acabou cercada por uma enorme tradição.

Séculos depois, escritos atribuídos a Enoque desenvolveram histórias sobre o mundo anterior ao Dilúvio, seres angelicais, juízo divino e acontecimentos que não aparecem com os mesmos detalhes no livro de Gênesis.

O que conta o Livro de Enoque?

O que chamamos hoje de 1 Enoque não parece ter sido escrito de uma única vez por um único autor. Trata-se de uma coleção formada por diferentes seções ao longo da Antiguidade e atribuída ao personagem bíblico Enoque.

Entre seus temas mais conhecidos estão:

01. os Vigilantes, seres angelicais que descem à Terra;

02. tradições relacionadas aos gigantes e ao mundo anterior ao Dilúvio;

03. viagens e visões celestiais atribuídas a Enoque;

04. anúncios de juízo divino contra a impiedade;

05. temas ligados ao destino dos justos e dos ímpios.

Isso ajuda a explicar por que Enoque desperta tanta curiosidade atualmente. Mas durante muito tempo poderia surgir uma dúvida: quão antiga é realmente essa tradição?

Uma descoberta no deserto da Judeia ajudou a responder parte dessa pergunta.

Fragmentos de Enoque foram encontrados em Qumran

Entre os Manuscritos do Mar Morto, encontrados nas cavernas próximas a Qumran a partir da década de 1940, apareceram fragmentos em aramaico pertencentes a diferentes partes de 1 Enoque.

🏺 O que a descoberta comprova?

As descobertas de Qumran mostram que pelo menos parte desses textos já circulava no judaísmo antigo, séculos antes da Idade Média. Isso não prova que todos os grupos judaicos considerassem Enoque como Escritura, mas confirma a antiguidade e a importância dessa tradição.

Esse detalhe é fundamental.

Enoque não é simplesmente uma história inventada por cristãos medievais. Suas tradições já faziam parte do ambiente religioso judaico do período do Segundo Templo.

Posteriormente, o texto completo de 1 Enoque seria preservado principalmente em ge’ez, a língua clássica da tradição literária etíope.

E então encontramos uma ligação ainda mais surpreendente.

A Bíblia cita o Livro de Enoque?

A Epístola de Judas contém uma passagem muito próxima de 1 Enoque 1:9 e apresenta a declaração como uma profecia de Enoque.

“E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos…”

Judas 1:14–15

A semelhança mostra que a tradição de Enoque era conhecida no ambiente judaico-cristão antigo.

Mas aqui existe uma distinção importante: uma citação ou utilização de uma tradição não significa automaticamente que todo o livro citado seja reconhecido como Escritura inspirada.

A própria Bíblia menciona outras obras externas, como veremos mais adiante.

Mesmo assim, a relação entre Judas e Enoque é um dos elementos que tornam esse escrito tão interessante para o estudo do cristianismo primitivo.

Enoque também nos leva a Matusalém

Existe ainda uma ligação direta com outro personagem que desperta muita curiosidade.

Enoque era pai de Matusalém, o homem cuja idade registrada em Gênesis chegou a 969 anos.

📖 Quem foi Matusalém?

A genealogia de Enoque continua com um dos personagens mais curiosos de Gênesis. Matusalém viveu 969 anos e morreu justamente no ano em que o Dilúvio ocorreu segundo a cronologia do texto hebraico tradicional.

Continue o estudo:
Quem foi Matusalém? Ele realmente viveu 969 anos?

Enoque, porém, não é o único texto antigo relacionado às histórias de Gênesis que sobreviveu fora da maioria das Bíblias.

O Livro dos Jubileus

Outro escrito muito importante para compreender o judaísmo antigo é o Livro dos Jubileus.

Ele reconta acontecimentos de Gênesis e parte de Êxodo, mas organiza a história dentro de períodos de jubileus e acrescenta interpretações e detalhes que não aparecem diretamente no texto bíblico.

O livro provavelmente foi composto no século II a.C. e sua autoria é desconhecida.

Assim como aconteceu com Enoque, fragmentos de Jubileus também foram encontrados entre os escritos de Qumran.

Por que isso importa? Enoque e Jubileus ajudam os estudiosos a enxergar como alguns judeus da Antiguidade interpretavam histórias como a criação, os patriarcas, os anjos e o Dilúvio. Seu valor histórico não depende de considerá-los parte do cânon bíblico.

Esses dois livros são apenas uma parte do quadro.

Quando colocamos lado a lado os diferentes cânones cristãos, encontramos vários outros textos fora da Bíblia protestante — alguns preservados pelos católicos, outros pelos ortodoxos e outros apenas em tradições específicas.

Então quais são esses livros?

Quais livros estão fora da Bíblia protestante hoje?

A resposta depende de qual tradição cristã usamos para fazer a comparação.

Se compararmos a Bíblia protestante com a católica, encontramos sete livros completos adicionais e partes de Ester e Daniel. Quando incluímos as tradições ortodoxas e etíope, a lista se torna ainda maior.

01. Na Bíblia Católica: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico (Sirácida), Baruc, 1 Macabeus e 2 Macabeus, além de partes adicionais de Ester e Daniel.

02. Em tradições ortodoxas: além de vários desses livros, podem aparecer textos como 1 Esdras, 3 Macabeus, Salmo 151 e Oração de Manassés.

03. Na tradição etíope: encontramos ainda obras como 1 Enoque e Jubileus, além de outros escritos próprios de seu cânon.

Isso ajuda a entender por que a expressão “livros que foram retirados da Bíblia” precisa ser usada com cuidado.

Alguns desses livros continuam dentro da Bíblia de milhões de cristãos. Outros nunca fizeram parte do cânon da maioria das tradições cristãs.

Mas quando esses textos foram escritos? E sabemos quem os escreveu?

Quando os principais livros apócrifos foram escritos?

As datas são aproximadas. Como acontece com muitos documentos da Antiguidade, nem sempre conhecemos o autor ou o momento exato da composição.

A comparação, porém, ajuda a perceber algo importante: muitos desses textos surgiram no período entre o Antigo e o Novo Testamento ou dentro do judaísmo do Segundo Templo.

LivroData aproximadaAutoria ou tradição
TobiasProvavelmente séc. III–II a.C.Autor desconhecido
SirácidaInício do séc. II a.C., por volta de 180 a.C.Jesus ben Sira
1 MacabeusFinal do séc. II a.C.Autor judeu anônimo
2 MacabeusProvavelmente final do séc. II a.C.Resumo de uma obra de Jasão de Cirene
1 EnoqueColeção formada ao longo dos últimos séculos a.C. e início da era cristãDiferentes autores; atribuída a Enoque
JubileusSéc. II a.C.Autor judeu desconhecido

As datas mostram que não estamos falando de um único movimento ou de uma coleção escrita de uma vez. São obras de épocas, autores e contextos diferentes.

E algumas delas preservam informações históricas que ajudam a preencher o cenário entre o Antigo e o Novo Testamento.

O que dizem os principais livros apócrifos?

Os títulos podem parecer distantes, mas seus conteúdos incluem histórias familiares, guerras, sabedoria, perseguições religiosas, anjos e acontecimentos que ajudam a compreender melhor o mundo judaico antigo.

01. Tobias

O Livro de Tobias apresenta uma narrativa sobre família, fidelidade a Deus, oração, casamento e providência divina.

Um dos personagens mais conhecidos da história é o anjo Rafael, que acompanha Tobias em sua jornada sem revelar imediatamente sua verdadeira identidade.

O livro é considerado deuterocanônico pelos católicos e faz parte de tradições ortodoxas, mas não integra o cânon protestante.

🏺 Manuscritos encontrados: fragmentos antigos de Tobias em aramaico e hebraico foram encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto. A descoberta confirmou que a obra já circulava no judaísmo antigo.

02. Judite

Judite conta a história de uma mulher israelita piedosa e corajosa que desempenha papel decisivo na libertação de seu povo diante de uma ameaça militar.

A narrativa combina fé, coragem, estratégia e resistência.

Ao mesmo tempo, o livro apresenta dificuldades históricas e cronológicas que levam muitos estudiosos a interpretá-lo como uma narrativa teológica ou histórica trabalhada literariamente, e não simplesmente como uma crônica moderna dos acontecimentos.

03. Sabedoria

O Livro da Sabedoria, também conhecido como Sabedoria de Salomão, reflete sobre justiça, sabedoria divina, morte, imortalidade e o destino dos justos.

Apesar do nome tradicional, a obra provavelmente não foi escrita pelo rei Salomão. Sua composição costuma ser associada a um ambiente judaico de língua grega.

O livro mostra como o pensamento judaico dialogava com o mundo helenístico nos séculos próximos ao surgimento do cristianismo.

04. Eclesiástico ou Sirácida

Este é um caso especialmente interessante porque conhecemos o nome associado ao autor: Jesus ben Sira.

Sirácida reúne ensinamentos sobre sabedoria, família, amizade, comportamento, temor de Deus, uso das palavras e vida cotidiana.

Sua composição costuma ser situada no início do século II a.C., aproximadamente por volta de 180 a.C.

Um detalhe raro: o prólogo da versão grega explica que a obra foi traduzida para o grego pelo neto do autor. Isso oferece uma pista histórica incomum sobre a transmissão do próprio livro.

Mas os dois livros seguintes nos levam diretamente para acontecimentos que mudaram a história judaica.

05. 1 Macabeus

Se o objetivo é compreender o período que antecedeu o Novo Testamento, 1 Macabeus é uma das fontes literárias mais importantes.

O livro narra a perseguição promovida durante o domínio selêucida, a resistência judaica e a revolta liderada pela família dos Macabeus.

Entre os acontecimentos narrados está a recuperação e a rededicação do Templo de Jerusalém.

📅 164 a.C.: a rededicação do Templo após a revolta dos Macabeus tornou-se um marco da história judaica. A celebração desse acontecimento está ligada à origem da festa de Hanukkah, a Festa da Dedicação.

Esse detalhe cria uma ligação interessante com o próprio Novo Testamento, porque João 10:22–23 menciona Jesus em Jerusalém durante a Festa da Dedicação.

Isso não transforma 1 Macabeus em Escritura para os protestantes, mas mostra por que conhecer esse período ajuda a compreender o cenário histórico encontrado nos Evangelhos.

06. 2 Macabeus

Apesar do nome, 2 Macabeus não é simplesmente a continuação de 1 Macabeus.

Ele aborda parte do mesmo período sob outra perspectiva e declara ser uma versão resumida de uma obra maior atribuída a Jasão de Cirene.

O livro dá maior destaque ao martírio, à fidelidade diante da perseguição, ao Templo e a temas teológicos que posteriormente se tornariam importantes nas discussões entre católicos e protestantes.

1 Macabeus e 2 Macabeus não contam simplesmente “parte 1” e “parte 2” da mesma história. Eles se sobrepõem em parte do período, mas possuem estilos, objetivos e perspectivas diferentes.

Até aqui estamos trabalhando principalmente com textos conhecidos através das tradições religiosas.

Mas no século XX aconteceu algo extraordinário: manuscritos com mais de dois mil anos começaram a aparecer em cavernas no deserto da Judeia.

E entre eles estavam alguns dos textos que acabamos de estudar.

Os Manuscritos do Mar Morto mudaram nossa visão desses livros

Manuscritos do Mar Morto encontrados nas cavernas de Qumran

Em 1947, uma das descobertas arqueológicas mais importantes para o estudo da Bíblia e do judaísmo antigo começou a chamar a atenção do mundo.

Nas cavernas próximas a Qumran, na região do Mar Morto, foram encontrados milhares de fragmentos pertencentes a centenas de manuscritos antigos.

Entre eles havia cópias de livros bíblicos, comentários, regras comunitárias, orações e diversos outros textos religiosos.

E alguns nomes chamam especialmente a atenção quando falamos sobre os livros apócrifos:

01. 1 Enoque — fragmentos em aramaico;

02. Jubileus — preservado em numerosos fragmentos;

03. Tobias — fragmentos em aramaico e hebraico;

04. Sirácida — sua antiga transmissão hebraica também é conhecida por manuscritos preservados no deserto da Judeia.

Essas descobertas ajudaram a derrubar uma ideia equivocada: a de que obras como Enoque, Jubileus ou Tobias seriam criações muito tardias sem ligação com o judaísmo antigo.

🏺 O que Qumran realmente provou?

As descobertas mostram que pelo menos parte desses textos já circulava no judaísmo antigo. Elas comprovam sua antiguidade e importância histórica, mas não provam que todos fossem considerados Escritura por todos os grupos judaicos.

Essa diferença é fundamental.

Encontrar um livro entre os Manuscritos do Mar Morto não significa automaticamente que ele pertencia a um cânon bíblico.

A comunidade que preservou os manuscritos possuía uma biblioteca muito mais ampla, formada por diferentes tipos de literatura religiosa.

Por outro lado, a descoberta mostra que esses textos precisam ser entendidos dentro do mundo do judaísmo do Segundo Templo, e não simplesmente como curiosidades produzidas muitos séculos depois.

E existe outra evidência interessante de que o mundo bíblico convivia com uma literatura muito maior do que aquela preservada dentro do cânon.

A própria Bíblia menciona livros que não estão nela

Esse detalhe costuma surpreender quem encontra essas referências pela primeira vez.

A própria Bíblia menciona outros livros e registros antigos que não fazem parte das Bíblias atuais.

Um dos exemplos mais conhecidos aparece durante a batalha narrada no livro de Josué.

“Não está isto escrito no livro dos Justos?”

Josué 10:13

1. O Livro dos Justos

O chamado Livro dos Justos — também conhecido pelo nome hebraico Sefer HaYashar — aparece novamente em 2 Samuel 1:18.

O problema é que não possuímos hoje uma cópia antiga que possa ser identificada com segurança como o livro mencionado nessas passagens.

Existem obras posteriores que receberam o título de “Livro dos Justos”, mas isso não significa que sejam o documento citado no texto bíblico.

2. O Livro das Guerras do Senhor

Outra referência ainda mais misteriosa aparece em Números:

“Pelo que se diz no livro das Guerras do Senhor…”

Números 21:14

O texto cita uma obra chamada Livro das Guerras do Senhor, mas esse documento não chegou até nós de forma identificável.

Provavelmente tratava-se de uma fonte antiga conhecida pelo autor ou pelos primeiros leitores do texto.

3. O Livro dos Atos de Salomão

Depois de narrar acontecimentos do reinado de Salomão, 1 Reis faz outra referência:

“Quanto ao mais dos atos de Salomão, e a tudo quanto fez, e à sua sabedoria, porventura não está escrito no livro dos atos de Salomão?”

1 Reis 11:41

Mais uma vez, temos referência a uma fonte que não faz parte do cânon bíblico e que não foi preservada de maneira que possamos identificá-la com segurança hoje.

Então a Bíblia citar outro livro prova que ele é inspirado? Não. Uma referência demonstra que o autor conhecia ou utilizava determinada fonte, mas não significa automaticamente que todo o conteúdo daquela obra possua a mesma autoridade das Escrituras.

Esse princípio é importante porque nos ajuda a voltar à questão de Judas e o Livro de Enoque.

Judas utilizar uma tradição encontrada em Enoque é historicamente significativo, mas isso, por si só, não resolve a discussão sobre a canonicidade de todo o Livro de Enoque.

Da mesma maneira, Josué mencionar o Livro dos Justos não transforma automaticamente todo aquele antigo documento em Escritura.

Livros perdidos da Bíblia são a mesma coisa que livros apócrifos?

Não necessariamente.

Essa expressão aparece bastante em pesquisas e vídeos sobre o assunto, mas mistura categorias diferentes.

01. Apócrifo conhecido: possuímos o texto ou parte dele, mas sua autoridade canônica varia ou ele está fora dos cânones mais conhecidos. Exemplo: 1 Enoque.

02. Deuterocanônico: faz parte do cânon católico, mas não do protestante. Exemplo: Tobias.

03. Obra antiga mencionada, mas não preservada: conhecemos sua existência principalmente porque outra fonte a cita. Exemplo: Livro das Guerras do Senhor.

Por isso, manchetes como “os livros secretos que foram retirados da Bíblia” podem juntar textos com histórias completamente diferentes.

Alguns continuam presentes em Bíblias cristãs. Outros sobreviveram fora do cânon. E de alguns conhecemos praticamente apenas o nome.

Mas isso levanta uma questão importante para quem lê a Bíblia hoje:

se esses livros não fazem parte da Bíblia protestante, ainda vale a pena conhecê-los?

Se não estão na Bíblia protestante, esses livros ainda têm importância?

Sim. E aqui é importante separar duas perguntas diferentes.

Um livro faz parte do cânon bíblico? Essa é uma questão religiosa e teológica.

Um livro possui valor histórico? Essa é outra questão.

Um cristão protestante pode não reconhecer Tobias, Macabeus, Enoque ou Jubileus como Escritura inspirada e, ainda assim, encontrar nesses textos informações importantes para compreender o mundo no qual a história bíblica aconteceu.

Não canônico não significa historicamente inútil. Um documento antigo pode não fazer parte da Bíblia e ainda preservar informações valiosas sobre acontecimentos, crenças, conflitos e interpretações existentes na Antiguidade.

Isso se torna especialmente importante quando chegamos ao período entre os acontecimentos finais do Antigo Testamento e o mundo encontrado no Novo Testamento.

Quando abrimos os Evangelhos, encontramos judeus vivendo sob domínio romano, diferentes grupos religiosos, expectativas sobre o Messias e festas que carregam uma história anterior.

Parte desse cenário pode ser compreendida melhor quando conhecemos a literatura judaica produzida nos séculos anteriores.

O que esses textos ajudam a compreender?

01. O período dos Macabeus
As perseguições, revoltas e transformações políticas ocorridas na Judeia antes do domínio romano.

02. O encontro entre judaísmo e cultura grega
Como comunidades judaicas reagiram à influência política, cultural e filosófica do mundo helenístico.

03. Anjos, demônios e o mundo espiritual
Textos como Enoque mostram como determinados grupos judaicos antigos desenvolveram interpretações sobre seres espirituais e passagens difíceis de Gênesis.

04. Ressurreição, juízo e esperança futura
Algumas dessas obras ajudam a acompanhar ideias religiosas que aparecem com maior destaque no período próximo ao Novo Testamento.

05. Como antigos judeus interpretavam a Bíblia
Jubileus, Enoque e outros escritos mostram interpretações de histórias como a criação, os patriarcas, os anjos e o Dilúvio.

Por isso, historiadores podem estudar esses documentos sem necessariamente assumir que eles sejam inspirados.

É parecido com o que acontece quando utilizamos escritos de historiadores antigos para compreender o Império Romano: o valor histórico de uma fonte não depende de ela pertencer à Bíblia.

E os livros apresentados até aqui representam apenas uma pequena parte da enorme literatura judaica e cristã que sobreviveu — integralmente, em fragmentos ou por meio de referências antigas.

Quais são os outros livros apócrifos conhecidos?

Além de Tobias, Judite, Sabedoria, Sirácida, Baruc, Macabeus, Enoque e Jubileus, existem muitos outros escritos antigos relacionados ao universo bíblico.

Aqui é preciso fazer uma ressalva: não existe uma lista universal e fechada de “todos os livros apócrifos”.

Isso acontece porque a palavra “apócrifo” pode abranger categorias diferentes. Existem pseudepígrafos judaicos, evangelhos apócrifos, atos, apocalipses, textos fragmentários e obras conhecidas apenas parcialmente.

Por isso, a lista abaixo funciona como um panorama dos principais escritos dos quais temos registro, além daqueles que já estudamos neste artigo.

Textos relacionados ao Antigo Testamento e ao judaísmo antigo

2 Enoque
3 Enoque
Testamentos dos Doze Patriarcas
Testamento de Abraão
Testamento de Moisés
Vida de Adão e Eva
Salmos de Salomão
2 Baruc
3 Baruc
4 Macabeus
Oráculos Sibilinos

Algumas dessas obras utilizam nomes de grandes personagens bíblicos, como Adão, Abraão, Moisés e Enoque. Isso não significa que tenham sido realmente escritas por esses personagens.

Em muitos casos, atribuir uma obra a uma figura antiga fazia parte de um gênero literário conhecido no mundo antigo.

Evangelhos e outros escritos cristãos antigos

Imagem com pergaminhos, textos em papiro, caneta em pena, representando como eram os primeiros livros ou escritos.

Depois do surgimento do cristianismo também apareceram numerosos textos relacionados a Jesus, aos apóstolos e às primeiras comunidades cristãs.

Evangelhos e narrativas:

Evangelho de Tomé •
Evangelho de Pedro •
Evangelho de Maria •
Evangelho de Filipe •
Evangelho de Judas •
Evangelho dos Hebreus •
Evangelho dos Egípcios •
Protoevangelho de Tiago •
Evangelho da Infância de Tomé

Atos e apocalipses:

Atos de Paulo •
Atos de Pedro •
Atos de João •
Atos de André •
Atos de Tomé •
Apocalipse de Pedro •
Apocalipse de Paulo

Há ainda escritos cristãos antigos como Pastor de Hermas, Didaquê e Epístola de Barnabé, que aparecem frequentemente nas discussões sobre literatura cristã primitiva e a formação do cânon.

Importante: colocar todos esses textos em uma mesma lista não significa que tenham tido a mesma importância, a mesma antiguidade ou a mesma proximidade com o cânon. Alguns foram muito respeitados por comunidades antigas; outros surgiram mais tarde e tiveram circulação limitada.

Então existem muito mais apócrifos do que sete?

Sim — se utilizarmos “apócrifos” em um sentido amplo.

Os famosos sete livros normalmente mencionados no debate entre católicos e protestantes representam apenas os sete livros completos do cânon católico ausentes do Antigo Testamento protestante.

Quando incluímos pseudepígrafos judaicos, evangelhos apócrifos, atos, apocalipses e outros escritos cristãos antigos, o número cresce bastante.

Mas isso não significa que existiu uma Bíblia gigantesca contendo todos eles e que, em algum momento, alguém decidiu reduzir a coleção para 66 livros.

Cada texto possui sua própria história.

Alguns foram considerados Escritura por determinadas tradições. Outros eram recomendados para leitura. Alguns foram rejeitados. Outros simplesmente nunca tiveram ampla pretensão canônica.

E essa diferença nos leva finalmente à pergunta que abriu este estudo:

afinal, alguém realmente retirou livros da Bíblia?

Afinal, alguém retirou livros da Bíblia?

A resposta mais correta é: a história é mais complexa do que simplesmente dizer que alguém retirou ou acrescentou livros à Bíblia.

A Bíblia não surgiu de uma única vez como um volume fechado contendo exatamente os mesmos livros utilizados por todos os cristãos hoje.

Durante séculos, diferentes comunidades judaicas e cristãs copiaram, leram, preservaram e avaliaram diversos escritos religiosos.

Com o tempo, tradições cristãs diferentes consolidaram cânones diferentes.

Em resumo:

A Bíblia Protestante possui 66 livros.

A Bíblia Católica possui 73 livros.

As tradições ortodoxas preservam cânones mais amplos, que podem variar entre elas.

A tradição da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo reconhece 81 livros.

Por isso, dizer simplesmente que “a Igreja Católica acrescentou sete livros” ignora que esses escritos já circulavam entre cristãos muito antes da Reforma.

Mas afirmar que “Martinho Lutero encontrou a Bíblia e retirou sete livros dela” também simplifica demais o processo.

A discussão sobre quais livros deveriam possuir autoridade canônica é muito mais antiga. Séculos antes da Reforma, já existiam debates e distinções entre diferentes escritos religiosos.

A Reforma Protestante representou um momento decisivo porque os reformadores passaram a seguir, para o Antigo Testamento, uma coleção correspondente ao conteúdo do cânon hebraico judaico, enquanto outros livros continuaram sendo impressos separadamente em muitas Bíblias protestantes durante bastante tempo.

Somente posteriormente se tornou comum encontrar edições protestantes sem a seção dos Apócrifos.

Do outro lado, a Igreja Católica reafirmou formalmente seu cânon no Concílio de Trento, em 1546, dentro do contexto das controvérsias da Reforma.

A ideia principal é esta: não existiu um único momento em que todos os cristãos possuíam exatamente a mesma Bíblia e alguém simplesmente decidiu esconder dezenas de livros. O que existiu foi um longo processo histórico de transmissão, uso, discussão e reconhecimento do cânon, que terminou de maneiras diferentes entre as tradições cristãs.

Isso também explica por que estudar os livros apócrifos pode ser tão interessante.

Eles nos permitem observar partes desse processo e conhecer textos que circularam entre judeus e cristãos antigos, mesmo quando não são considerados Escritura por determinada tradição.

Entre todos eles, talvez nenhum desperte tanta curiosidade quanto o Livro de Enoque.

Fragmentos encontrados em Qumran confirmaram a antiguidade de suas tradições, Judas preserva uma passagem muito próxima de seu conteúdo e a Igreja Etíope continua mantendo Enoque dentro de seu cânon.

Isso não significa que o livro inteiro tenha sido reconhecido como Escritura por todos os primeiros cristãos.

Mas significa que sua história merece ser estudada com muito mais cuidado do que simplesmente chamá-lo de “livro proibido” ou “livro escondido da Bíblia”.

📖 Próximo estudo: o Livro de Enoque

Quem eram os Vigilantes? O que o livro diz sobre os gigantes? Por que Judas parece citar Enoque? E por que esse texto permaneceu na Bíblia Etíope?

Essas perguntas merecem um estudo próprio sobre o Livro de Enoque e sua relação com a Bíblia.

Perguntas frequentes sobre os livros apócrifos

Veja respostas rápidas para algumas das principais dúvidas sobre os livros que não aparecem em todas as Bíblias.

1. Quantos livros apócrifos existem?

Não existe um número universal de livros apócrifos. O termo pode incluir deuterocanônicos, pseudepígrafos judaicos, evangelhos apócrifos, atos, apocalipses e diversos outros escritos antigos. Por isso, listas diferentes podem apresentar quantidades diferentes.

2. Quais são os sete livros que não estão na Bíblia protestante?

Em comparação com a Bíblia Católica, são Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico (Sirácida), Baruc, 1 Macabeus e 2 Macabeus. A tradição católica também preserva partes adicionais de Ester e Daniel que não aparecem da mesma forma no Antigo Testamento protestante.

3. Por que esses livros não estão na Bíblia protestante?

Durante a Reforma, os protestantes passaram a organizar o Antigo Testamento de acordo com a coleção correspondente ao cânon hebraico judaico. Os demais livros continuaram presentes em muitas das primeiras Bíblias protestantes como uma seção separada chamada Apócrifos, mas posteriormente deixaram de ser incluídos na maioria das edições.

4. Os católicos acrescentaram livros à Bíblia?

Não é historicamente preciso resumir a questão dessa maneira. Os livros chamados deuterocanônicos já circulavam e eram utilizados entre cristãos muito antes da Reforma. O Concílio de Trento, em 1546, reafirmou formalmente o cânon católico durante as controvérsias do século XVI.

5. Martinho Lutero retirou sete livros da Bíblia?

Não simplesmente. Lutero colocou esses livros em uma seção separada e não os considerou equivalentes às Escrituras canônicas, mas eles continuaram sendo impressos em muitas Bíblias protestantes. A retirada física dessa seção das edições protestantes tornou-se mais comum posteriormente.

6. O Livro de Enoque já fez parte da Bíblia?

O Livro de Enoque não pertence aos cânones protestante ou católico e também não integra a maioria dos cânones ortodoxos. Entretanto, 1 Enoque é preservado como livro bíblico na tradição da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo.

7. A Bíblia cita o Livro de Enoque?

Judas 1:14–15 apresenta uma profecia atribuída a Enoque que possui correspondência muito próxima com 1 Enoque 1:9. Isso demonstra conhecimento dessa tradição, mas não significa automaticamente que todo o Livro de Enoque seja reconhecido como Escritura.

8. A Bíblia Etíope realmente possui 81 livros?

Sim. A própria tradição da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo reconhece um cânon de 81 livros, preservando obras que não aparecem nas Bíblias protestante e católica, entre elas Enoque e Jubileus.

9. Os Manuscritos do Mar Morto provaram que os apócrifos são inspirados?

Não. As descobertas de Qumran confirmaram a antiguidade e a circulação de diversos textos, incluindo Enoque, Jubileus e Tobias. Encontrar um manuscrito antigo não determina, por si só, sua canonicidade.

10. Vale a pena ler os livros apócrifos?

Como documentos históricos, muitos deles são importantes para compreender o judaísmo antigo, o período entre os Testamentos e o ambiente cultural e religioso próximo ao surgimento do cristianismo. A questão de considerá-los Escritura inspirada, porém, depende da tradição religiosa e de sua compreensão do cânon.

Tags

5 1 vote
Article Rating
Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Categorias

CONFIRA TAMBÉM

Compartilhe
0
Would love your thoughts, please comment.x